2001

EDIÇÃO ESPECIAL - 50 ANOS

Editorial

Ao comemorar os cinqüenta anos de fundação da Sociedade Caritativa e Literária São Francisco de Assis — Zona Norte, o Centro Universitário Franciscano dedica esta edição especial da Revista Vidya aos que mantiveram, com sua colaboração e trabalho, a empreende-dora e dinâmica presença dessa Entidade, que muito tem contribuído para o desenvolvimento social e educacional no Brasil.

A iniciativa do empreendimento cabe às Irmãs Franciscanas, originárias da Holanda, cuja ação, em sua ascendência, vai longe no tempo. Catarina Daemen, mulher que unia em seu agir ternura e firmeza, simples no convívio, expressava com determinação seu senti-mento-lema: Deus providebit, expressão que constituía a ideia de sua crença em Deus, que conduz favoravelmente os que nele confiam e buscam a orientação para suas vidas. Ela funda, então, na cidade de Heythuysen, aos 10 de maio de 1835, a Congregação das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, com a finalidade de evangelizar e promover a pessoa humana através da educação, do serviço social e do cuidado aos doentes.

Passados poucos anos, a Congregação das Irmãs Franciscanas expandiu-se para a Alemanha onde se tornou rapidamente conhecida e apreciada pela solidez e determinação de seus princípios de vida e missão.

Na segunda metade do século XIX desenvolviam-se, naquele território, mudanças sociais e políticas baseadas na teoria do direito do Estado. Os tempos eram de grandes preocupações e sofrimentos causados por guerras. Nesse contexto, as Irmãs Franciscanas tiveram a iniciativa da assistência aos feridos, instalando inclusive, em estabelecimentos próprios, os doentes.

Emergiu também, nesse período, o Kulturkamp, ideologia que provocou a luta aberta dirigida pelo governo da Alemanha à igreja católica. Conflitos ideológicos entre Estado e Igreja desencadearam perseguição a pessoas e entidades religiosas, que atuavam na educação e no ensino. Escolas franciscanas, posteriormente, foram fechadas sob o governo de Bismarck.

Entretanto, em consequência da industrialização que ocorria nos países germânicos, substituindo muitos artesãos por alguns operários, o que ocasionava crescente desemprego, começava a emigração. A saída de desempregados para o Novo Mundo abrandava a tensão social. A par disso, no Brasil, a política imigratória de D. Pedro voltava-se a países europeus, entre eles, a Alemanha, pois via nos seus imigrantes a possibilidade de contrabalançar o poder da oligarquia rural do Sul do país.

Foi através desse momento sinuoso da história que se iluminou um outro caminho para as Irmãs Franciscanas, impedidas de exercerem suas atividades educacionais na própria pátria.

Reconhecendo a necessidade de os filhos dos imigrantes terem acesso ao ensino e à formação integral, o Padre Guilherme Feldhaus, superior dos jesuítas no Sul do Brasil, escreveu à Superiora das Irmãs Franciscanas solicitando a vinda de religiosas, pois os colonos não se conformavam com a perspectiva de seus filhos serem criados sem oportunidade de frequentar uma escola. Ponderadas as dificuldades de distância, viagens, condições sociais e mesmo comunicação, decidiu-se por atender ao desafio de assumir o chamado para a América.

Chegadas a São Leopoldo, aos 2 de abril de 1872, seis Irmãs expressaram a emoção por terem sobrevivido às tempestades no mar e a alegria de estarem em solo firme. Constituindo a primeira congregação feminina de vida apostólica ativa no Rio Grande do Sul, iniciaram imediatamente sua missão no ensino, sem temor à realidade desconhecida, com o olhar confiante no futuro.

Decorridos mais de um século, podemos confirmar que o árduo trabalho inicial, em que as Irmãs professoras aprendiam com seus alunos a nova língua, costumes diferentes, outro modo de pensar, a seu tempo cresceu e produziu frutos de aprendizado e de promoção humana.

Com o aumento populacional e a urbanização, apresentavam-se maiores exigências de organização do ensino e das instituições. Inseridas nessa história, as Irmãs fundaram, em 1903, a Sociedade Caritativa e Literária São Francisco de Assis como mantenedora das instituições que dirigiam, fossem de educação, de saúde ou de assistência social. Porém, com a expansão para outras regiões do estado do Rio Grande do Sul e a multiplicação de estabelecimentos, reunidas em assembleia geral, desmembraram-se em dois grupos. O de origem, fundado em 1903, passou a denominar-se Sociedade Caritativa e Literária São Francisco de Assis — Zona Central, com sede em São Leopoldo, sendo que a nova entidade chamou-se Sociedade Caritativa e Literária São Francisco de Assis — Zona Norte, SCALIFRA-ZN, constituída em 31 de julho de 1951, com sede em Santa Maria-RS, atualmente, com filiais em seis estados brasileiros e no Distrito Federal, mantendo a educação nos níveis básico e superior. Em seu propósito de prestar serviços educacionais, tem-se caracterizado pela divulgação do saber, da ciência e da cultura, pelo compromisso com os valores éticos e pela promoção da cidadania.

Celebrar esse percurso da SCALIFRA-ZN é fazer com que sua existência presentifique o ideal dos primórdios, as dificuldades transpostas, os sinais luminosos que se espalharam. Os milhares de estudantes, professores e funcionários que frequentaram as escolas mantidas pela SCALIFRA-ZN no decorrer desses cinquenta anos não o fizeram por acaso. Nelas deixaram um pouco de si mesmos e levaram, de alguma forma, a marca ao menos do tempo ali passado.

Gratidão é uma bela atitude-resposta à colaboração de tantas pessoas que contribuíram para o engrandecimento dessa Entidade. A sintonia com a inspiração originária da obra educacional inspire sua continuidade na audaciosa prática da paz e do bem e na renovada confiança de que, nos dias atuais, Deus providencia e conduz os que nele confiam.

Irani Rupolo

Reitora

 

Sumário

Artigos

Larissa Fabrício Fröhlich
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Frei Silvestre Gialdi
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23
Zília Mara Scarpari
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14
Alberto da Silva Moreira
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18
Irani Rupolo
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16
Frei Silvestre Gialdi
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12